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A Medicina Ayurveda se tornou amplamente conhecida no mundo por ter uma visão única a respeito do corpo humano e seu funcionamento, que é compreendido por meio de entidades chamadas doshas.

É bastante comum ouvirmos sobre os doshas vata, pitta e kapha, que estão relacionados ao corpo. No entanto, também possuímos doshas relacionados à mente: rajas e tamas. Essas cinco entidades são responsáveis pelo funcionamento do nosso organismo como um todo.

Também conhecidos como humores ou biotipos, os doshas são os responsáveis pela nossa fisiologia, ou seja, todos os processos físico-químicos que o nosso organismo realiza diariamente. Sendo assim, abrir e fechar os olhos, crescer, digerir, caminhar, bocejar, respirar, absolutamente tudo o que fazemos é devido a eles.

Ao compreendermos a dinâmica dos doshas, podemos entender o que se passa no corpo de uma pessoa e assim diagnosticar desequilíbrios, bem como restabelecer a saúde.

Se você quer se aprofundar no assunto, continue a leitura. Vou compartilhar com você uma visão bastante completa sobre o que são os doshas, como eles funcionam e qual a sua importância dentro do contexto da Medicina Tradicional Indiana.

O que é dosha?

Doshas são as entidades responsáveis por todo o funcionamento de um organismo vivo e estão na base da fisiologia, comandando todos os processos que ocorrem em nossos corpos, como a fala, a digestão, o caminhar, a respiração e a visão, por exemplo.

Quando equilibrados, os doshas promovem a saúde, pois dão sustentação ao corpo. Mas quando desequilibrados, eles podem gerar doenças. E é aí que está a importância de conhecermos essas entidades.

Os doshas do corpo — vata, pitta e kapha — expressam três grandes pilares inerentes à vida: movimento, transformação e estrutura, respectivamente. Os doshas da mente — rajas e tamas — comandam a nossa mente, representando atividade e inatividade, nessa ordem.

Panchamahabhutas: a base da compreensão dos doshas

Segundo a Filosofia Sankhya, que forma uma das bases do Ayurveda, tudo o que existe no Universo é composto por cinco elementos primordiais, chamados de panchamahabhutas:

  • akasha (espaço);
  • vayu (ar);
  • agni (fogo);
  • jala (água);
  • prthvi (terra).

Pense nos panchamahabhutas como elementos químicos que, ao se combinarem de inúmeras formas, dão origem a tudo o que existe, desde um grão de areia até o complexo ser humano.

Ao se combinarem de determinada forma, esses elementos dão origem aos doshas, da seguinte maneira:

  • vata = akasha + vayu (éter e ar);
  • pitta = agni + jala (fogo e água);
  • kapha = jala + prthvi (água e terra).

Vata representa o elemento ar e é responsável por todos os tipos de movimentos em nosso organismo, como andar, pensar e abrir os olhos. Pitta é responsável por todas as transformações, como digestão e metabolismo. Kapha, por sua vez, é quem dá estrutura, como músculos e ossos, por exemplo.

Quando esses elementos se desequilibram no organismo, isto é, estão em excesso ou falta, eles afetam nossos tecidos corporais, causando doenças.

Por exemplo, se o dosha pitta é composto dos elementos fogo e água e você come um alimento apimentado, que gera calor no seu corpo, automaticamente haverá um aumento do elemento fogo no seu organismo. Logo, você poderá sentir ardência.

Se esse aumento é momentâneo, tudo bem. Logo em seguida, pitta dosha voltará ao seu equilíbrio normal. Mas, se esse aumento acontecer todos os dias, pode levar a uma gastrite, por exemplo.

Pegou a ideia? Mais do que entender qual dos doshas está desequilibrado, precisamos identificar quais características dos doshas estão desequilibradas.

É por isso que o Ayurveda é considerado um sistema de medicina de precisão. Afinal, podemos ter dez pessoas com gastrite, cada uma com uma origem diferente para o problema.

Os 5 doshas no Ayurveda

Segundo a Medicina Tradicional Indiana, existem dois tipos de doshas:

  • doshas do corpo (sharirika doshas): vata, pitta e kapha;
  • doshas da mente (manasika doshas): rajas e tamas.

Embora façamos essa divisão para compreendermos melhor como eles funcionam, a verdade que é que os doshas do corpo e os doshas da mente interagem entre si o tempo inteiro. Isso acontece porque os panchamahabhutas são formados pelos mahagunas — sattva, rajas e tamas —, que são as entidades que controlam a mente. Como eu já havia dito, rajas é o princípio de atividade da mente. Tamas é a inatividade. Sattva, por sua vez, é o equilíbrio.

Quando dizemos que os panchamahabhutas formam tudo o que existe no Universo e que eles são constituídos por sattva, rajas e tamas, precisamos entender que a mente está em tudo, não apenas no cérebro, como a medicina moderna gosta de afirmar. Ou seja, cada célula do seu corpo é dotada de mente.

P. V. Sharma nos chama a atenção para o fato de que quando a energia vital, chamada de prana, entra no corpo, os doshas surgem como os controladores das funções vitais. Eles formam a nossa prakrti, isto é, constituição natural, que é um reflexo da mesma estrutura que sustenta o mundo externo: o Vento (vata), o Sol (pitta) e a Lua (kapha).

O Vento com sua qualidade de movimento, o Sol com sua qualidade de calor e a Lua com sua qualidade fria. Tudo isso controlado pela mente, que é composta de Sattva, Rajas e Tamas.

Vata dosha: o corpo em ação

O dosha vata é responsável pelo movimento em nosso corpo e é formado predominantemente por akasha e vayu mahabhuta, ou seja, os elementos espaço e ar.

Quando pensamos em espaço e ar, o que vem à nossa mente? Frieza e secura. E essas são as qualidades principais do dosha vata. Mas não são as únicas. Ele também é leve, áspero, sutil e móvel. Em sânscrito, as características do dosha vata são:

  • ruksha (seco);
  • laghu (leve);
  • shita (frio);
  • khara (áspero);
  • sukshma (sutil);
  • chala (móvel).

Também conhecido como maruta ou vayu, vata dosha pode ser subvidivido em cinco tipos de manifestação em nosso corpo, os chamados subdoshas:

  • prana vayu;
  • udana vayu;
  • vyana vayu;
  • samana vayu;
  • apana vayu.

Cada uma dessas subdivisões é responsável por funções específicas no organismo e pode ocasionar desequilíbrios próprios. Dessa forma, além de analisar os gunas ou qualidades de vata que estão desequilibradas, também precisamos nos atentar para as interações entre esses subdoshas. Somente desta maneira poderemos restabelecer o equilíbrio do organismo.

Pitta dosha: o corpo em transformação

O dosha pitta é o responsável por todas as transformações que ocorrem em nosso organismo, sendo que a digestão é a mais simbólica delas dentro da Medicina Ayurveda. Contudo, não podemos nos esquecer do metabolismo como um todo, bem como da apreensão de conhecimento, que também são processos de transformação.

Com relação aos 5 elementos, pitta dosha é formado por agni (fogo) e jala (água). E quais são as características de pitta dosha?

  • sasneha (levemente oleoso);
  • tikshna (penetrante);
  • ushna (quente);
  • laghu (leve);
  • visra (viscoso);
  • sara (fluido);
  • drava (líquido).

Assim como em vata dosha, precisamos olhar essas características do dosha pitta para compreender o que exatamente está em desequilíbrio no organismo da pessoa, para só então entrarmos com o tratamento adequado.

Kapha dosha: o corpo em estabilidade

O dosha kapha é o responsável por dar estabilidade ao nosso organismo. Ele é formado por jala e prthvi mahabhuta, ou seja, os elementos água e terra. Se você já brincou com lama, talvez já consiga antecipar algumas das características do dosha kapha:

  • snigdha (oleoso);
  • shita (frio);
  • guru (pesado);
  • manda (lendo);
  • slakshana (suave);
  • mrtsna (viscoso);
  • sthira (estável).

Trazendo para a física e química modernas, kapha dosha é a força de adesão que mantém todas as células do nosso corpo unidas.

Por que os doshas desequilibram?

Imagine que os doshas são como as engrenagens de um relógio. Quando as engrenagens funcionam em perfeita harmonia, o relógio se mantém em perfeito funcionamento.

Mas, caso uma das engrenagens apresente defeito, o relógio pode começar a atrasar, um dos ponteiros pode ficar preso e todo o maquinário pode simplesmente pifar.

Com os doshas acontece algo bem parecido. Tanto os doshas da mente quanto os doshas do corpo atuam em perfeita harmonia entre si. Mas essa harmonia está sujeita a várias interferências.

Essas interferências são chamadas de ahara-vihara no Ayurveda e significam alimentação e estilo de vida. Na alimentação, você pode considerar tudo aquilo com o qual seu corpo entra em contato, seja uma comida, uma música ou até mesmo uma emoção.

Vihara, por sua vez, abarca hábitos e comportamentos que prejudicam a sua saúde, como dormir pouco, não praticar atividades físicas, não cuidar da sua saúde emocional e por aí vai.

Outros fatores que podem desequilibrar os doshas são: o ambiente no qual vivemos; o clima; a estação do ano; e a forma como percebemos o mundo.

Cada pessoa estará mais sujeita a um tipo de desequilíbrio de acordo com o seu contexto social, econômico e ambiental. Por isso mesmo a Medicina Ayurveda olha para todos esses fatores na hora de propor qualquer tipo de tratamento.

Como devolver os doshas ao seu equilíbrio?

De acordo com o Ashtanga Hrdayam, um dos livros clássicos do Ayurveda, quando os doshas estão perfeitamente equilibrados, eles não são considerados mais doshas, mas sim dhatus, ou seja, tecidos que dão sustentação ao corpo. Isso porque dosha significa “aquilo que gera desequilíbrio”. Logo, se não há desequilíbrio, aquilo que gera desequilíbrio deixa de existir.

No entanto, os doshas são entidades em movimento contínuo em nosso organismo. Em outras palavras, eles oscilam o tempo todo, seja quando comemos, caminhamos ou dormimos. Por isso, dizemos que eles estão em equilíbrio dinâmico.

Quando esse equilíbrio dinâmico é quebrado e um ou mais doshas começa a prejudicar os dhatus, nós temos algumas formas de devolver o organismo ao seu equilíbrio normal.

Mexer na alimentação é a forma mais simples e natural de recuperar o equilíbrio dos doshas. A partir do conhecimento dos sabores no Ayurveda, podemos usar o alimento como remédio e reestabelecer a nossa saúde.

Outra forma é buscar substâncias que ajudem a pacificar os doshas. Nesse sentido, existem três substâncias por excelência que ajudam a pacificar vata, pitta e kapha, respectivamente: óleo de gergelim, ghee e mel.

Também podemos fazer uso das ervas medicinais para equilibrar os doshas. Nesse caso, precisamos nos atentar para as propriedades de cada planta, como virya (potência), vipaka (sabor pós-digestivo) e prabhava (ação específica), além dos gunas (qualidades) e karma (ação).

Finalmente, podemos lançar mão do panchakarma na pacificação dos doshas. Esse conjunto de terapias visa expulsar os doshas agravados do corpo, devolvendo-o ao seu estado natural.

Como descobrir o seu dosha?

Vamos retomar um pouco do que vimos neste artigo. Doshas são unidades funcionais do nosso organismo, responsáveis por executar todas as atividades inerentes ao nosso corpo.

De modo simples, vata é responsável pelo movimento, pitta pelas transformações e kapha pela estabilidade. Agora para e pensa comigo: dá para viver sem um deles? Ou só com um deles?

Não, né? Por isso, a resposta sobre qual é o seu dosha é bastante simples: todos. Inclusive rajas e tamas, que são os doshas da mente.

Quando alguém fala “descubra seu dosha”, na verdade está se referindo à prakrti, que é a sua constituição natural, a sua essência. E se você quiser saber mais sobre ela, basta conferir o artigo Prakrti no Ayurveda: uma visão para além dos doshas.

Um abraço e a gente se fala no próximo artigo!

Eve.

Referências

SHARMA, P. V. Essentials of Ayurveda. India: Motilal Banarsidass Publishers, 1998.

Évelim Wroblewski

Geminiana, comunicóloga, taróloga, terapeuta Ayurveda e da Ginecologia Natural. Possui Especialização em Striroga (Ginecologia Ayurveda) e Manas Vijñana (Psicologia Ayurveda). Cursou Formação em Medicina Tradicional e Herbolaria Andina, Formação em Parteria Ancestral Andina e Diplomatura em Medicina Tradicional e Cosmovisão Indoamericana.

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